Momento Espírita
Curitiba, 20 de Julho de 2017
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ícone Sobras da alma

Davi é uma das esculturas mais famosas do autor renascentista Michelangelo.

O trabalho, uma estátua de mármore que mede cinco metros e dezessete centímetros de altura, retrata o herói bíblico com realismo anatômico impressionante, sendo considerada uma das mais importantes obras desse período da História das artes.

A escultura imponente se encontra em Florença, Itália, cidade que, originalmente, encomendou a obra.

Michelangelo levou três anos para concluí-la, em 1504.

É fascinante perceber a habilidade dos grandes artistas, conseguindo enxergar numa grande pedra uma bela escultura.

Um deles, certa feita, relatou que ficou a fitar um grande bloco de mármore por horas e horas, até visualizar a estátua ali dentro. Depois, segundo contou, bastou tirar as sobras, desbastando a pedra, para que surgisse a escultura perfeita.

*   *   *

Inspirados na sabedoria dos grandes mestres, podemos levar esse entendimento para nossas vidas.

Imaginando que nossa alma é nossa grande obra, a grande escultura que precisamos aformosear, entenderemos que a técnica desses artistas é genial.

Primeiro, a análise demorada. Olhar para dentro da alma, conhecê-la. Penetrar em sua intimidade buscando encontrar-se.

É o conhecimento de si mesmo, a chave de todo progresso moral. A grande viagem para dentro do Espírito, procurando lá o que precisa de reforma, de melhoria.

Quais as nossas maiores imperfeições, nossas dificuldades? E quais também nossas habilidades, nossos potenciais?

Estabelecendo o que precisa ser retirado, encontrando as sobras da rocha do Espírito, começamos então o trabalho de esculpir a alma.

Retirar tudo que não é essencial, que não é nosso, que não faz parte da construção da nossa felicidade.

Remover os vícios, as mágoas, os grandes e pequenos ódios que fomos guardando ao longo das eras.

Retirarmos a poluição mental, os pensamentos de inveja, ciúme e revolta.

Removermos a tristeza e a depressão que já nos fizeram tão mal, que já nos fizeram desistir tantas vezes, soltando o cinzel das mãos por alguns momentos.

Alguns blocos podem ficar sem o trabalho do escultor por um longo período... Mas acabam por não resistir à ação do tempo, e voltam a pedir que o escultor continue... continue.

O processo pode ser doloroso, incômodo, assim como as investidas do artista, com suas ferramentas, contra o mármore.

As primeiras ações são as mais doloridas, pois o bloco ainda está intocado em várias partes. Retirar a alma da inércia espiritual não é nada fácil.

Porém, quanto mais vamos retirando, mais da nossa verdadeira essência vamos enxergando, e isso concede ânimo, energia, para não retardar o trabalho de escultura.

Após algum tempo, após algumas reencarnações, começaremos a vislumbrar a beleza de Davi no meio de tantos pedaços de pedra que foram vertendo da pedra bruta.

É assim que esculpimos a alma, nossa grande obra-prima, que inicia sua jornada na simplicidade e na ignorância, e que a devemos concluir na perfeição, na felicidade.

Nossa alma, nosso Davi, nossa grande obra!

Redação do Momento Espírita.
Disponível no CD Momento Espírita, v. 26, ed. FEP.
Em 9.9.2014.

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