Momento Espírita
Curitiba, 13 de Fevereiro de 2026
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ícone Apesar dos limites

Quando era estudante de medicina numa Universidade dos Estados Unidos da América, Dr. Marlin nutria a preocupação com um mundo cheio de pessoas portadoras de deficiências e de doentes sem esperança de cura.

Por essa razão, era partidário da eutanásia.

Costumava travar calorosas discussões com os colegas que pensavam de maneira diferente da sua.

Aos seus inflamados argumentos, os companheiros respondiam:

Você não vê que estamos estudando medicina, precisamente para cuidar das pessoas com qualquer deficiência física ou mental?

Os médicos existem neste mundo para curar os doentes. Era a resposta que ele dava. Se nada podemos fazer em seu benefício, o melhor para eles é a morte.

Certa noite, quando prestava serviço como interno, no último ano do curso, Marlin foi chamado para assistir a uma parturiente, que morava num bairro miserável da cidade.

Era o décimo filho que ela dava à luz. O bebê entrou neste mundo com uma das perninhas bem mais curta do que a outra.

De imediato, acudiram à mente de Marlin:

Este pequeno vai passar a vida inteira arrastando esta perna.

Para que hei de obrigá-lo a viver? O mundo nunca dará pela falta dele.

Apesar desses pensamentos, não decretou a morte do pequeno.

Cumprido o dever, foi embora censurando o próprio procedimento:

Não posso compreender por que fiz isto! Como se não houvesse filhos demais naquele antro de miséria. Não entendo por que deixei viver mais aquele. Ainda por cima estropiado.

*   *   *

Os anos correram. Dr. Marlin consagrou-se como médico e se dedicava verdadeiramente a salvar e conservar vidas.

Um dia, seu filho único e a esposa morreram num acidente de automóvel. Na qualidade de avô, ele adotou a netinha.

Quando completou dez anos, a menina acordou, certa manhã, queixando-se de torcicolo e de dores nas pernas e nos braços.

Verificou-se que era uma raríssima infecção causada por vírus pouco conhecido, que causava paralisia.

Os neurologistas procurados foram unânimes em afirmar que não se conhecia remédio nem tratamento algum para aquela enfermidade.

Porém, existe um médico no Oeste que escreveu recentemente sobre o êxito que tem obtido em casos como este, observou um dos neurologistas.

Dr. Marlin tomou a menina e se dirigiu para o hospital indicado.

Quando ficou frente a frente com o médico, único capaz de salvar a neta tão querida, observou que o jovem colega coxeava acentuadamente.

Esta perna curta faz de mim um igual dos meus doentes, observou o dr. T. J. Miller, ao notar o olhar do dr. Marlin.

Meu nome é Tadeu. Sempre me pareceu um tanto pomposo. Como a tantos outros meninos, deram-me o nome do moço interno que uma noite me ajudou a vir ao mundo.

Dr. Tadeu Marlin empalideceu e engoliu a seco. Por alguns minutos, lembrou-se dos pensamentos que lhe acorreram naquela noite distante: O mundo nunca dará pela falta dele.

Estendeu comovidamente a mão ao colega graças ao qual a neta ia poder andar outra vez. E pensou: Sempre é melhor ser pessoa coxa do que pessoa cega, como eu fui, por muito tempo.

Redação do Momento Espírita, a partir
 de artigo de
Seleções Reader's Digest,
 de fevereiro/1948.
Disponível no livro Momento Espírita, v. 3, ed. FEP.
Em 18.2.2026

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