Momento Espírita
Curitiba, 27 de Setembro de 2020
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ícone Ele precisava de amor

Ela morava em um asilo de idosos há três anos.

Agradável com todos, tornou-se o centro das atenções gerais.

Embora tivesse que permanecer em sua cama, ou na cadeira de rodas, em função das dores que sentia com o desgaste das vértebras e das juntas, mostrava-se feliz.

Sempre tinha uma história para contar, com uma dicção clara, um linguajar de alto e bom astral, que encantava quem a ouvia.

Quando falava sobre o Evangelho de Jesus, fazia quem a ouvisse, chorar de emoção, tão bem pintava as telas que descrevia.

Dava exemplos, por vezes, relatando fatos de sua própria vivência, junto da família.

Certa feita, alguém lhe perguntou por quantos anos fora casada.

Com um fundo suspiro, ela respondeu: Por cinquenta e três anos. E sem férias.

As curiosidades foram muitas e a primeira foi desejar saber se o marido era bom e gentil, para que o casamento durasse tanto.

Até o dia do casamento me parecia que seria, disse ela, depois, as coisas foram mudando muito.

Ele era bem mais velho, estrangeiro, ateu, cheio de costumes muito diferentes dos meus. Eu era jovem, vinda de uma família simples. De infância pobre e muito religiosa.

Seu Deus, segundo ele mesmo, era o dinheiro. Seus apegos maiores, a gula e o sexo.

Tinha momentos em que parecia ter saído daqueles filmes antigos, da Idade Média.

Nunca falou que me amava ou que gostava de mim.

Em determinado momento da narrativa, ela foi interrompida:

O que fez você continuar com ele?

Tranquilamente, ela foi enumerando: Primeiro, em respeito aos filhos, que precisavam de uma família, para crescerem e se tornarem homens de bem.

Segundo, em respeito a ele mesmo, pois o conhecendo melhor, senti que ele precisava de mim, para não se tornar pior do que era.

Ele precisava sentir-se protegido, cuidado, acompanhado.

Quando o ouvinte atento lhe disse que isso deveria ter representado muito sacrifício, sua resposta foi ainda mais surpreendente:

Ele foi para mim, em verdade, um grande professor. Foi meu professor de paciência, de renúncia, de fé, de resignação, de superação, de virtudes...

Tive que me esmerar para continuar vivendo junto dele, e para o ver partindo da Terra, com alguma mudança interior.

No final de seus dias, ele já buscava Deus. O sexo esfriara, até mesmo pela idade. Somente a gula persistiu até o fim.

No entanto, o melhor foi que aprendeu, com os netos, a lhes dizer: “Eu te amo!”

*    *    *

E continuou: Em minhas orações, agradeço aos meus pais, que me deram um exemplo especial de parceria, mesmo nos momentos mais árduos, enfrentados em família.

Agradeço à crença na vida imortal que justifica os sacrifícios, explicando-os à luz da razão.

Agradeço o fato de saber, conscientemente, que nada nos acontece por acaso.

Sobretudo, agradeço a Deus por ter podido levar minha tarefa até o fim, e conquistar essa imensa paz, em minha consciência.

*   *   *

Amor desinteressado. Dedicação imorredoura.

Exemplo de vida, que nos leva a imaginar o valor do dever retamente cumprido.

Redação do Momento Espírita.
Em 13.8.2015.

 

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