Momento Espírita
Curitiba, 14 de Julho de 2020
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ícone O Natal das saudades

Lembro com carinho dos Natais de minha infância.

A família era numerosa, as dificuldades muitas. E havia uma época do ano muito especial: o Natal.

Algumas semanas antes do 25 de dezembro, meu pai trazia para casa um belo pinheiro. Era dever de nós todos, contando com a ajuda de mamãe, enfeitar a bela árvore.

Depois, meus pais colocavam embaixo do pinheiro os tão esperados presentes, que somente poderiam ser abertos no Natal.

No aguardado dia, preparavam uma bela ceia. Porém, antes da refeição, nos reuníamos em torno da mesa e papai narrava como se dera o nascimento de Jesus.

Emocionados, nos uníamos em prece de agradecimento, conduzidos por minha mãe. Cantávamos Noite feliz, um tanto desafinados, é verdade.

A refeição era servida para depois, em torno do pinheiro, recebermos os presentes de Natal: chinelinhos de dedo, lápis, cadernos escolares, suéteres que mamãe havia tricotado.

Era uma alegria só.

E, na hora de dormir, eu deixava os chinelinhos atrás da porta, pois, ao amanhecer, é certo de que lá estaria, sobre eles, um delicioso chocolate para alegrar a manhã...

*   *   * 

Hoje, sou pai, avô e bisavô.

É Natal. Estão todos, filhos, netos, bisnetos, reunidos em minha casa, em torno de um pinheiro que, anualmente, faço questão de enfeitar.

Eu os contemplo, assim, felizes, e lembro-me de meus pais e alguns de meus irmãos, que já partiram.

O Natal é uma época que sempre nos enche de saudades.

Então Pedro, meu bisnetinho de seis anos, trazendo os brinquedos modernos que ganhou, se aproxima e pergunta: Vovô, o que o senhor ganhava de presente de Natal quando era criança, assim como eu?

Ora, meu filho, eu ganhava chinelinhos de dedo e os colocava atrás da porta, para que, no dia seguinte, ganhasse um chocolate.

Vovô, eu tenho chinelinhos! Olha, vovô!

Então corra! Vá, coloque seus chinelinhos atrás da porta e quem sabe o que você vai encontrar sobre eles amanhã...

Anos e anos se passaram. A tecnologia e os recursos avançaram. Ontem fui eu um menino, hoje sou bisavô. E a simplicidade de um chinelinho é ainda capaz de fazer o menino de ontem e o de hoje sorrir e ser feliz!

*   *   *

Espelho, amigo verdadeiro,

tu refletes as minhas rugas,

os meus cabelos brancos,

os meus olhos míopes e cansados.

Espelho, amigo verdadeiro,

mestre do realismo exato e minucioso,

obrigado!

Mas se fosses mágico,

penetrarias até o fundo deste homem,

descobririas o menino que sustenta esse homem,

o menino que não quer morrer,

que não morrerá senão comigo,

o menino que todos os anos na véspera de Natal,

pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

*   *   *

Ao celebrarmos o nascimento do Embaixador do amor, lembremos da simplicidade na qual Ele nasceu e viveu.

O Natal não são os presentes caros, as ceias fartas, as ostentações materiais.

Onde se cultiva o amor, é onde nasce Jesus.

Pensemos nisso!

Redação do Momento Espírita,
com versos do poema
Versos de Natal, de Manuel Bandeira,
do livro
Lira dos cinquent’anos, ed. Global.
Em 25.12.2015.

 

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