Momento Espírita
Curitiba, 14 de Agosto de 2020
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ícone Quadro familiar

Uma cena, como uma pintura, desenha-se à nossa frente: um homem compenetrado, pai de família, estudando para a fase final de seu doutorado.

No ambiente tranquilo, ouve-se alguns passos apressados e leves: era Sarah, sua filhinha.

Papai, você quer ver meu desenho? – Perguntou ela, com brilho nos olhos.

Sem olhar para ela, o pai respondeu, com calma:

Sarah, papai está ocupado. Volte um pouco mais tarde, querida.

Dez minutos depois, ela volta à biblioteca, dizendo: Papai, me deixa mostrar o meu desenho?

Sarah, meu amor, volte mais tarde. Isto que estou fazendo é importante. – Respondeu ele.

Três minutos depois ela entra novamente, fica a um palmo do nariz do pai e fala com todo poder que um comandante de cinco anos de idade poderia conseguir: Você quer ver ou não?

Não, eu não quero. – Retorquiu o homem, sem pensar muito no que havia dito.

Com isso, ela zuniu para fora e o deixou só.

De alguma maneira, ele não estava tão satisfeito quanto pensou que ficaria.

Sentiu-se como que puxado, e foi até a porta da frente.

Sarah! – Ele chamou. – Você poderia entrar um minuto, por favor? Papai gostaria de ver o seu desenho.

Ela entrou sem reclamações e se atirou em seu colo.

Era um grande quadro. No alto, com sua melhor letra, estava escrito: Nossa família.

Explique-me o quadro. – Pediu ele.

Com os pequeninos dedos de sua mão, ela descreveu:

Aqui é a mamãe (uma figura de palito com cabelo longo, amarelo e ondulado); aqui sou eu, do lado de mamãe; aqui é Katie (nosso cachorro); e aqui é Missy (a pequenina irmã).

Adorei seu desenho, querida. – Elogiou o pai, sorrindo. Vou pendurar na parede da sala de jantar, e toda noite, quando eu voltar para casa, eu vou olhar para ele.

Ela sorriu, de orelha a orelha, e foi brincar.

Ele ficou intranquilo. Algo sobre o desenho de Sarah. Alguma coisa estava faltando.

Foi até a porta da frente e voltou a chamar a filhinha.

Posso ver seu desenho, outra vez?

Ela o apanhou rapidamente e, logo, estava no colo do pai, animada.

Foi, então, que ele fez uma pergunta, da qual não estava certo de que gostaria de ouvir a resposta:

Querida... Tem a mamãe, e Sarah, e Missy, e até Katie em seu desenho. Tem também sol, nossa casa e muitos pássaros. Mas, Sarah, onde está seu papai?

Depressa, ela respondeu, nem sequer imaginando a lição que estava prestes a dar a seu pai:

Você está na biblioteca!

Com aquela declaração simples, Sarah fez parar o tempo para seu pai. Erguendo-a, suavemente, ele a mandou de volta para brincar ao sol da primavera.

Algumas semanas se passaram, e ele tornou-se doutor.

Então, certa noite, ainda com o coração apertado, conversando com sua esposa antes de dormir, fez-lhe a seguinte pergunta:

Bárbara... Eu quero voltar para casa. Posso?

Vinte segundos de silêncio se seguiram. Parecia que ele havia prendido seu fôlego por mais de uma hora.

Gary, disse a esposa. – As meninas e eu o amamos muito. Nós o queremos em casa. Mas você não esteve aqui! Eu me senti como pai e mãe por muito tempo!

Aquela era a verdade clara, sem disfarce. – Pensou ele.

Sua vida tinha sido descontrolada, sua família estava em piloto automático, e ele tinha uma longa estrada pela frente se a quisesse conquistar novamente.

Agora, que a névoa havia se dissipado, ele estava disposto a tentar, e esse passou a ser o objetivo mais importante de sua vida.

Redação do Momento Espírita, com base no texto
Quadro familiar, de Ronaldo José Lungatto.
Disponível no livro Momento Espírita, v.3, ed. FEP.
Em 27.2.2014.

 

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