Momento Espírita
Curitiba, 01 de Maio de 2026
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ícone Revisitando o ontem...

Com extrema curiosidade, subo os degraus do castelo medieval, fortaleza de batalhas inglórias. Impressionam-me as marcas deixadas pelas águas do mar, que, a cada dia, investem contra as altas muralhas.

Visito as alamedas com arbustos verdes, atravesso salas imensas, extasiando-me com a arquitetura de tempos tão recuados. Enfim, com quase devoção, adentro um imenso salão.

Um lamento seco ecoa pelas paredes descascadas, nas quais o tempo decidiu morar.

O cheiro de pó e carvalho antigo invade-me os pulmões, trazendo o gosto metálico de eras que a História quase apagou.

Caminho pelo salão vazio, sentindo o peso de séculos nas pontas dos dedos, ao tocar as colunas de mármore gasto e sem brilho.

Pareço vislumbrar mesas, banquetas, ocupadas por dedicados copistas. Recuo a séculos transatos.

As sombras se alongam no recinto. O silêncio reina no lugar do raspar rítmico das penas de ganso. O cheiro de mofo e pergaminho velho ainda flutua no ar frio, evocando o tempo em que a luz das velas era a única guardiã do saber humano.

Neste scriptorium deserto, as paredes guardam o eco de orações sussurradas entre letras banhadas a ouro e pigmentos de lápis-lazúli.

Pareço descobrir as silhuetas curvadas de monges que dedicavam vidas inteiras a uma única obra, ignorando o mundo de fora, que parecia distante.

Cada mancha de tinta é uma cicatriz de um tempo em que a palavra era um tesouro esculpido à mão, caprichosamente. Antes que as prensas de metal e o barulho mecânico de Gutenberg tornassem a escrita veloz, nesse espaço, o conhecimento respirava no compasso do coração.

Os manuscritos partiram, as estantes estão nuas, e o que restou foi apenas a poeira de um pensamento que não precisava de máquinas para ser eterno.

Sinto-me como um visitante em um templo de paciência esquecida, onde a alma do livro morreu antes mesmo de ser impressa em série pela primeira vez.

No vazio da sala, o tempo parou no exato instante em que a última pena caiu ao chão, cedendo lugar ao chumbo, antimônio e estanho.

Indago a mim mesmo, ante a emoção que me invade, se não terei presenciado as cenas reais desse trabalho.

Ou terei sido, em algum tempo, um desses dedicados copistas, desenhando letras, criando iluminuras, numa paciente e delicada obra de arte?

Foram-se os anos. Hoje, no desfrutar de tanta tecnologia, honro na lembrança o trabalho heroico dos dedicados e anônimos registradores, que devotavam sua criatividade e seu esforço para que não se perdessem ditos e feitos de uma Humanidade em ascensão.

Para onde mais seguirão os passos dessa Humanidade, concebida à imagem e semelhança de um Criador insuperável?

Que caminhos mais surpreendentes nos aguardam à frente, plenos de surpresas, de facilidades que mais nos permitirão gozar de tempo para viver em plenitude?

Somente um Criador tão generoso e onipotente para traçar um destino grandioso, sem limites para Sua Criação.

Redação do Momento Espírita
Em 1º.5.2026

 

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