Ele procurara o psiquiatra porque precisava tomar uma decisão. Precisava de quem lhe dissesse que estava certo no que pretendia fazer.
O que ele sabia com certeza: era tremendamente infeliz. E a primeira frase que saiu de sua boca foi: Doutor, eu não amo mais a minha esposa. Quero me separar. O que o senhor me diz?
O médico, experiente e calmo, respondeu: Ame a sua esposa.
O paciente pensou que não se expressara de forma conveniente. Ou talvez se tratasse mesmo de um problema de audição. Diga-se, sempre pensamos assim quando o outro responde de maneira diversa daquela que esperávamos.
Então repetiu, dessa vez, frisando as palavras: Doutor, preste atenção. Eu estou lhe dizendo que eu não amo mais a minha mulher. Acabou o amor, eu quero me separar. O que o senhor me diz?
O médico reprisou a mesma frase: Ame a sua esposa.
Doutor, estou dizendo ao senhor que eu não amo mais a minha esposa. Perdi todo aquele encantamento. Estou dizendo que eu não a amo. Eu perdi aquele frisson, aquele elã, aquela coisa.
O médico olhou para ele e esclareceu: O problema do senhor é que o senhor está com a cabeça em Hollywood.
Como assim? - Quase gritou o homem ansioso por quem lhe referendasse a decisão.
O senhor está querendo o amor cinematográfico. Está querendo aquele amor com cara de adolescente.
O que o senhor está querendo é ter aquelas emoções próprias da adolescência, da juventude. Amor é sentimento. Mas amar é verbo e verbo transitivo direto, ou seja, exige ação.
*
Somente descobrimos o amor quando amamos. O amor necessita de uma ação. É preciso sair daquela preguiça na qual vivemos para buscar o amor.
Porque o amor se resume em amar. Então, é preciso sair de nós mesmos, de nossa zona de conforto, para amar.
O amor resume-se ao exercício de amar. Começamos amando, amando e aí ele vai aparecendo.
Estamos falando do exercício que é necessário para que esse sentimento de fato ecloda em nossa intimidade e crie raízes de profundidade.
É necessário buscar essa construção, que é o exercício de amar.
A pequena planta necessita de água, ar, luz e calor para viver. O amor precisa de emoção e de alegria. Tem que ser regado, alimentado todo dia.
E o detalhe importante é nos apaixonarmos pelo menos uma vez por semana. Como se cada semana fosse um novo capítulo de um livro que não queremos parar de ler.
Cada dia, darmo-nos conta de que, mesmo convivendo tanto, ainda existe um universo no outro, um universo a ser explorado.
Ficarmos atentos a detalhes. Algo especial que somente o ser amado tem, como aquele jeito de mexer no cabelo, o sorriso fácil que brota gentil a cada reencontro, mesmo que o período seja curto, da saída pela manhã ao retorno no cair da tarde.
Estarmos sempre prontos para mudar os planos do cotidiano para fazer algo diferente, saindo da trilha batida e criando uma memória fresquinha e vibrante.
Selarmos o compromisso, cada semana, de nunca deixar o nós virar paisagem, porque, afinal, amar é verbo transitivo direto.
Quem ama, ama alguém.
Redação do Momento Espírita, com base na palestra
A lei de amor. Porque o amor tudo supera, de Sandra Borba
Pereira, proferida na 6ª Conferência Estadual Espírita, em
24.4.2004, no Palácio de Cristal, Círculo Militar do Paraná,
em Curitiba/PR.
Em 15.5.2026
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