Durante largo tempo, acreditamos que somente seres especiais podiam dialogar com a Divindade.
O xamanismo, a mais antiga prática espiritual, médica e filosófica da Humanidade, com raízes que remontam ao período paleolítico, reconhecia no xamã a capacidade de entrar em contato com ancestrais e com o Grande Espírito.
Ao tempo do legislador hebreu Moisés, constatamos que a comunicação direta com Yahweh, o Senhor, era altamente restrita. Na maior parte das vezes, centralizada na figura do próprio Moisés.
Descreve o livro bíblico do Êxodo que uma nuvem cobria a chamada tenda da congregação, significando a presença invisível de Deus.
Quando a coluna de nuvem descia e ficava na entrada, Moisés podia adentrar o local e falar face a face com Yahweh.
O Mestre de Nazaré desmistificou o acesso ao Divino, ensinando a nos dirigir a Ele para tudo.
Dizei assim: Pai nosso, que estás nos céus, falou Ele. E afirmou que seríamos atendidos em tudo que lhe pedíssemos.
A menina Rachel, acostumada a ouvir seu avô orando em voz alta ou fechando os olhos e ficando em silêncio, acreditava que somente ele tinha autoridade para falar com Deus.
Todas as terças-feiras ela saía da escola e ia para a casa dele. Tomavam chá juntos. Depois, ela o ouvia conversar com Deus em hebraico.
Ficava sentada e pacientemente esperava. Ela sabia que a melhor parte vinha quando ele colocava as mãos suavemente sobre a sua cabeça.
Começava agradecendo a Deus por ela existir e por ele ser seu avô. Aí, contava para Deus todos os progressos que ela fizera durante a semana.
Rachel aguardava, ansiosa, para ouvir o que ele dizia a Yahweh. Se ela tivesse cometido erros durante a semana, o avô falava da sua honestidade em dizer a verdade.
Se houvera algum fracasso, ele valorizava o quanto ela havia se esforçado para acertar. Se ela adormecera, com a luz do quarto apagada, ele festejava a sua coragem em dormir no escuro.
Eram instantes em que ela se sentia totalmente segura e em paz.
Afinal, todos os demais membros da família, médicos e profissionais da saúde, eram extremamente exigentes com ela.
Se ela conseguisse noventa e oito numa prova, o comentário imediato de seu pai era o que havia acontecido aos dois pontos que faltavam para o nível ideal, o máximo.
Estar com o avô era como repousar à beira das palmeiras de um oásis pleno de amor. Ela sentia que tudo o que ele falava era verdade.
Ninguém além dele a olhava daquela maneira especial. Tinha até escolhido uma forma de chamá-la: Neshumele, que quer dizer Querida alma pequenina.
Quando o avô morreu, Rachel tinha somente sete anos. E se acreditou perdida.
Como não havia quem falasse a Deus sobre ela, será que ela poderia desaparecer?
Foi necessário o passar dos meses para ela começar a entender que podia falar com Aquele Ser Divino, Superior. Podia falar de si, dizer das suas lutas, das suas conquistas, das suas carências.
Então, abriu seu coração e mergulhou num constante oásis de paz e bênçãos.
Que tal começarmos a realizar esse mergulho a cada dia, a cada manhã?
Redação do Momento Espírita, com base no cap.
Abençoando, pt. 1, do livro As bênçãos do meu avô,
de Rachel Naomi Remen, ed. Sextante.
Em 2.6.2026