Dizem que nosso coração é nosso verdadeiro mastro. A alma é a bússola que aponta, invariavelmente, para o solo onde o primeiro sopro de vida nos acalentou.
O que ocorre quando o destino, em suas tramas, por vezes incompreensíveis, nos afasta desse porto? O que sente aquele que, amando as entranhas de sua terra, vê-se obrigado a contemplar estrelas estrangeiras?
Para o patriota, para aquele que traz nas veias o barro de sua cidade e no olhar os matizes de seu horizonte, ser exilado é viver em um eterno entardecer.
É caminhar por ruas que não conhecem o seu nome e ouvir uma língua que, embora bela, jamais terá a melodia do acalanto materno.
O exilado é um ser partido. Não pertence totalmente ao chão que o acolhe, pois suas raízes clamam por outra seiva. E já não pertence fisicamente ao solo amado, tornando-se nele uma fotografia que desbota na parede da saudade.
Ser exilado é sentir o frio de um inverno que não é seu, buscando o calor de um sol que brilha do outro lado do oceano.
A dor do patriota exilado assemelha-se à do pássaro que, em gaiola de ouro, recusa-se a cantar, pois a beleza do palácio não substitui o frescor da mata.
Porém, se a pátria é o berço das primeiras lições, o amor por ela é um vínculo que as águas de nenhum mar conseguem dissolver.
O verdadeiro patriota leva sua terra dentro de si. Ele a reconstrói a cada pensamento, a cada prece, a cada lágrima vertida em silêncio.
Ele planta as flores de seu jardim distante nos vasos de sua nova morada. Ele conta as histórias de seu povo para que o vento as leve de volta ao lar.
Ele entende, com a maturidade que a dor confere, que nenhum homem é um estrangeiro no Universo de Deus, mas que o coração sempre terá um endereço sagrado, um ponto de luz que chama pelo nome.
Entretanto, embora o corpo sofra a privação do solo, o Espírito, alado e livre, faz a travessia todas as noites, em sonhos, para repousar sob a sombra daquelas mangueiras, daqueles pinheiros ou daquelas palmeiras onde a vida, um dia, sorriu plena e absoluta.
Por isso, chorou em versos o poeta que
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
* * *
Todos somos exilados na Terra, temporariamente, egressos de um mundo que é nosso início e nosso fim.
O mundo espiritual é o verdadeiro mundo, normal, primitivo, e preexistente ao corporal. É nossa pátria original, onde existimos antes da vida material.
Por isso, muitas vezes, a melancolia nos abraça sem que possamos entender a causa. Sentimos saudades de onde estivemos, de onde saímos para entrar na carne.
Sentimos saudades dos amores que não puderam nos acompanhar. Por isso mesmo, a bondade divina permite-nos, a cada noite de sono, nos desprender do corpo e transitar por onde estivemos antes, revendo quadros de felicidade e abraçando amores.
Alguns momentos, cada noite, para alimentarmos o coração com as lembranças de delicados reencontros.
Deus não é mesmo extraordinário?
Redação do Momento Espírita, com base nas
questões 84 e 85 de O Livro dos Espíritos,
de Allan Kardec, ed. FEB.
Em 29.6.2026