O filósofo moderno Byung-Chul Han, em sua obra Sociedade paliativa, traz uma séria reflexão sobre o nosso tempo e o nosso comportamento.
Ele afirma que vivemos uma espécie de algofobia, ou seja, um medo generalizado e um pavor profundo diante de qualquer tipo de sofrimento.
Fugimos da dor a todo custo. Criamos uma sociedade que busca a anestesia permanente, na qual tudo deve ser fácil, confortável e só há espaço para o sucesso constante.
A dor passou a ser vista como um sinal de fraqueza, um obstáculo que deve ser imediatamente eliminado com remédios e distrações, pois ela atrapalha o nosso desempenho no mundo.
No entanto, quando fechamos totalmente as portas para o sofrimento, quando nos recusamos a enfrentar as frustrações e contrariedades da vida, deixamos de sentir e, principalmente, deixamos de aprender e amadurecer.
A dor é sempre um sinal, uma mensagem profunda da vida que precisa ser ouvida e compreendida para que possamos crescer.
O pensador Léon Denis nos convida a olhar para as nossas aflições com outras lentes.
Ele nos apresenta a dor como uma lei de equilíbrio e de educação da alma.
A alma, para conquistar seus atributos de grandeza, de poder e de verdadeira felicidade, precisa das rudes lições que despertam a sua sensibilidade e fazem crescer a sua vontade e a sua consciência.
Imaginemos um bloco de mármore frio, informe e sem beleza. Para que dele surja uma estátua viva, com formas harmoniosas e suaves, é preciso a ação incessante e vigorosa do martelo e do cinzel.
Assim age a dor nas profundezas da nossa consciência. Ela é o cinzel nas mãos de um artista incomparável que desbasta as nossas arestas, elimina o nosso orgulho e o nosso egoísmo, modelando a nossa beleza interior.
Não se trata de buscarmos o sofrimento de forma voluntária ou masoquista. A vida possui seus desafios naturais e as nossas escolhas passadas nos trazem as reparações e expiações necessárias.
O convite é para que, quando a dor se erguer inevitável em nosso caminho, não nos revoltemos nem nos entreguemos ao desânimo arrasador.
Não tentemos anestesiar a alma para fugir da realidade e do trabalho íntimo. Em vez disso, procuremos entender os ensinamentos secretos que essa prova nos traz.
Associemos a nossa vontade e o nosso pensamento ao propósito elevado dessa experiência, sabendo que o sofrimento é um iniciador que nos revela o lado mais sério e imponente da nossa jornada imortal.
A dor é o mais nobre agente da nossa perfeição. É na dor que mais se sobressaem os cânticos da alma e se revelam os verdadeiros heróis.
Ela nos liberta do vício, da apatia e da indiferença, ajudando-nos a construir uma individualidade luminosa, forte e plenamente viva.
Assim, diante dos dias cinzentos e das lágrimas, acolhamos o sofrer com coragem e demos a ele um novo significado.
Tenhamos a certeza de que não estamos sendo destruídos pela adversidade. Estamos, na verdade, sendo lapidados para a eternidade.
Redação do Momento Espírita
com base na obra Sociedade Paliativa,
de Byung-Chul Han, ed. Vozes e na pt. 3,
do cap. 26 da obra O problema do ser, do
destino e da dor, de Léon Denis, ed. FEB.
Em 27.8.2026
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