Num mundo repleto de ruídos, pressões e correrias, é muito comum nos perdermos de nós mesmos.
Vivemos voltados para fora, preocupados em alimentar as aparências e atender aos caprichos do nosso ego.
O poeta indiano Rabindranath Tagore nos faz um convite revelador. Ele escreve que, em todo indivíduo, existe um recanto imaculado, virgem, inexplorado, silencioso e profundo:
Em toda criatura permanece um mundo, santo e ignorado, nunca dantes penetrado, aguardando, enriquecido de ternura...
Há, no abismo de toda alma, um rochedo, um lugar, uma ilha, um paraíso, recanto de maravilha a ser descoberto...
Em todo coração se demora um espaço aberto para a aurora,
Um campo imenso a ser trabalhado,
Terra de Deus, lugar de sonho,
Reduto para o futuro...
*
Podemos interpretar esse lugar singular, como sendo nosso self, ou o nosso eu profundo.
Benfeitora espiritual nos ensina que a conquista desse espaço íntimo é a grande meta da nossa evolução. No entanto, até alcançarmos esse amadurecimento, travamos uma guerra constante dentro de nós.
A nossa personalidade consciente é, muitas vezes, governada pelo ego, que é transitório, caprichoso e dominador.
Ele costuma se enfeitar com coisas que chamam a atenção e busca prazeres imediatos que não saciam a fome da alma.
Por insegurança e falta de autoamor, o ego trava lutas internas, agindo com reações intempestivas para encobrir as nossas próprias debilidades.
Entretanto, a proposta da vida é o triunfo da alma sobre a matéria.
Essa batalha moral é comparada a uma luta no campo da consciência, entre as nossas poucas virtudes e os nossos muitos vícios.
Cada vitória sobre as paixões primárias é um passo no autodescobrimento, um verdadeiro renascimento psicológico nesta nossa caminhada terrena.
A desagregação do ego abre caminho para a dilatação do self, permitindo que a pureza do Espírito se manifeste.
O si profundo é como o diamante que alcança a transparência após toda a depuração no silêncio do seu refinamento molecular, libertando-se da ganga que o reveste.
Quando o adulto psicológico consegue acalmar a criança íntima e repartir o amor latente, ele aprende a silenciar o ego para deixar de ser juiz alheio.
Afinal, há em cada coração um espaço aberto para a aurora, um campo imenso a ser trabalhado, que é terra de Deus e lugar de sonho.
Se ainda nos sentimos longe da paz, façamos um mergulho nas águas dessa essência, elevando os pensamentos ao Criador.
Convidemos o Senhor da vida a assumir o reino do nosso coração, acalmando a ansiedade e iluminando as nossas províncias íntimas com as claridades celestes.
Digamos, com sinceridade: Senhor, ajuda-nos a ver aquilo que o orgulho não nos permite ver. Abre-nos os ouvidos surdos de vaidade, e sensibiliza nosso coração.
Que descubramos a Tua divina presença em nós e transformemos a nossa vida num hino de serviço e numa perene canção de amor.
Apanha a fragilidade dos nossos dias e fortalece-nos na fé que restaura e na caridade que edifica.
Redação do Momento Espírita com trecho do
poema Lugar de amor, do livro Pássaros livres,
do Espírito Rabindranath Tagore, e no cap. 12
do livro Autodescobrimento, do Espírito
Joanna de Ângelis, ambos psicografia de
Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL.
Em 22.10.2026